bolo

    O ibu ainda está por aí, recusando o nada, esperando por um pesadelo novo, melhor. Ainda está sozinho, mas acredita que pode superar sua solidão através de alguns acordos com os outros quatro bilhões de ibus. Estarão lá fora? Nunca se pode saber...

    Então, junto com 300 a 500 ibus, ele forma um bolo. O bolo é seu acordo básico com outros ibus, um contexto direto, pessoal, para viver, produzir, morrer.2

O bolo substitui o velho negócio chamado dinheiro. Dentro e em volta do bolo os ibus podem conseguir suas 2.000 calorias diárias, espaço para viver, cuidados médicos – as bases da sobrevivência. E muito mais ainda.

    O ibu nasce num bolo, passa sua infância lá, é tratado quando fica doente, aprende certas coisas, faz um coisinha ou outra, é abraçado e consolado quando está triste, toma conta de outros ibus, anda à toa por aí, desaparece. Nenhum ibu pode ser expulso de um bolo. Mas é sempre livre para sair e voltar. O bolo é o lar do ibu na nossa espaçonave.

    O ibu não é obrigado a juntar-se a um bolo. Ele pode ficar inteiramente só, formar pequenos grupos, fechar acordos especiais com os bolos. Se a maioria dos ibus se une em bolos, a economia monetária morre e não volta nunca mais. A auto-suficiência quase completa do bolo garante sua independência. Os bolos são o cerne de um forma nova, pessoal e direta de trocas sociais. Sem bolos, a economia monetária tem que voltar, e o ibu estará sozinho de novo com seu trabalho, com seu dinheiro, dependendo de pensões, do Estado, da polícia.

    A auto-suficiência do bolo se baseia em dois elementos: construções e equipamentos para morar e trabalhar (sibi), e um pedaço de terra para produzir a maior parte de seus alimentos. A base agrícola pode consistir também de pastos, montanhas, áreas de caça e pesca, bosques de palmeiras, culturas de algas, áreas de coleta, etc., conforme as condições geográficas. O bolo é amplamente auto-suficiente no que se refere ao suprimento diário de comida. Pode reparar e manter suas construções e ferramentas sozinho. Para garantir a hospitalidade (sila), deve ser capaz de alimentar mais 30 a 50 hóspedes ou viajantes com sus próprios recursos.

    Auto-suficiência não é necessariamente isolamento ou autolimitação. Os bolos podem fazer acordos e serviços (ver feno). Essa cooperação é bi ou multilateral, não planejada por uma organização central; é inteiramente voluntária. O próprio bolo pode escolher seu grau de autarquia ou independência, de acordo com sua identidade cultural (nima).

    O tamanho e o número de habitantes dos bolos podem ser a grosso modo idênticos em todas as partes do mundo. Suas funções básicas e obrigações (sila) são as mesmas em qualquer lugar. Mas seu território, arquitetura, organização, cultura e outras formas ou valores (se é que existem) podem ser múltiplos. Nenhum bolo é igual ao outro, assim como dois ibus não são iguais. Cada ibu e cada bolo têm sua própria identidade. E bolo’bolo não é um sistema, mas uma colcha de retalhos de microssistemas.

    bolos não têm que ser construídos em espaços vazios. Aproveitam as estruturas que já existem. Em cidades maiores um bolo pode consistir de um ou dois prédios, de um bairro pequeno ou de um complexo de prédios vizinhos. Você só tem que construir arcos de ligação e passarelas, usando os andares térreos como espaços comunais, abrindo passagens em certas paredes, etc. Assim, uma típica vizinhança antiga pode ser transformada num bolo como este:

    Moradias maiores e mais altas podem ser usadas como bolos verticais. No campo, um bolo corresponde a uma pequena aldeia, a um grupo de casas de fazenda, a um vale povoado. Um bolo não precisa ser unificado arquitetonicamente. No Pacífico Sul um bolo é uma ilha de coral, ou mesmo um grupo de atóis menores. No deserto, o bolo pode nem ter localização precisa; ele é a própria rota dos nômades que o integram (talvez os membros deste bolo só se encontrem todos uma ou duas vezes por ano). Em rios ou lagos, bolos podem ser formados por barcos. Podem existir bolos em antigas fábricas, palácios, adegas, navios de guerra, monastérios, sob os terminais da ponte Rio-Niterói, em museus, zoológicos, praias, campings, pavilhões, penitenciárias, shopping centers, no Maracanã e no Maracanãzinho, na Ilha Grande, no Ibirapuera. Os bolos vão construir seus ninhos em toda parte, e as únicas regras gerais são seu tamanho e suas funções. Algumas formas possíveis de bolos:

 

Algumas formas de bolos

 

Um típico bolo centro-europeu

 

Algumas formas de bolos

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