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Guerra e medicina, violência e doença, morte vinda de fora ou de dentro: estes parecem ser os limites absolutos da nossa existência atual. Temos tanto medo dos "outros" quanto dos nossos próprios corpos. E é por isso que colocamos nossa confiança nas mãos dos respectivos especialistas e cientistas. Já que nos tornamos incapazes de compreender os sinais do corpo (dor, mal-estar, todos os tipos de sintomas), a medicina se tornou a derradeira ciência de legitimidade mais ou menos intacta. Praticamente todos os saltos tecnológicos (com as mais catastróficas implicações) foram justificadas por possíveis usos médicos (energia nuclear, computadores, químicas, aviação, programas espaciais, etc.).A vida é colocada com um valor absoluto, independente de ideologia e de cultura. Mesmo o mais brutal regime totalitário marca pontos se consegue aumentar a expectativa média de vida. Já que não somos capazes de entender nosso corpo, de lidar com ele apoiados em nossa identidade cultural, ficamos dependentes da ditadura médica, de uma classe de sacerdotes que podem definir virtualmente todos os detalhes da nossa vida. Entre todas as instituições, os hospitais são a mais totalitária, hierárquica, intimidadora. Se a vida (no sentido biomédico) é nosso valor primordial, deveríamos estar construindo imensos complexos médico-hospitalares, instalar equipagem de tratamento intensivo em todos os apartamentos, providenciar bancos de órgãos artificiais, máquinas para prolongar a vida, etc. Esses esforços industriais poderiam drenar inteiramente nosso tempo e nossa energia: seríamos escravos da sobrevivência otimizada. Cultura é também uma forma de lidar com a morte de construir pirâmides em vez de hospitais (os egípcios não eram exatamente malucos). Cemitérios, mausoléus para os ancestrais, funerais não são mera perda de energia e material: salvam vidas (contra a vida industrializada). Se não somos capazes de aceitar a morte de uma forma ou outra, vamos continuar matando e sendo mortos. (Você não pode ser a favor da vida e contra o holocausto nuclear ao mesmo tempo.)