16 Nestes tempos de crescente nacionalismo, parece quase suicida falar na abolição de nações. Como nos foi dito pelos teóricos marxistas da libertação que o nacionalismo é um passo necessário na batalha da independência contra o imperialismo, essa proposta parece encaminhar uma nova estratégia imperialista. Isso seria realmente verdade se somente as nações pequenas abrissem mão de sua existência enquanto as supernações imperialistas continuassem a exercer seu poder. A abolição das nações significa em primeiro lugar a subversão e o desmantelamento dos Estados Unidos e da União Soviética, a anulação dos dois blocos; sem isso, tudo o mais seria pura arte pela arte. Existem tendências centrífugas nas duas superpotências, e essa decomposição precisaria ser conseguida de qualquer jeito. O elemento principal do antinacionalismo não é uma espécie de pálido internacionalismo, mas o fortalecimento da regionalidade e das identidades culturais. Isso também é válido para pequenas nações: quanto mais reprimirem suas minorias culturais em nome da "unidade nacional", mais fracas ficarão e mais centralizados serão os superpoderes. (Precisamos considerar também que deve haver esperança para as minorias oprimidas nas supernações.)

    Muitos erros foram cometidos quanto à chamada questão das nações. Os socialistas acreditavam na superação do nacionalismo através do desenvolvimento de uma moderna civilização industrial internacional e consideravam a autonomia cultural como um pretexto para a regressão. Confrontadas com essa "utopia" socialista, a maioria das classes trabalhadoras preferiu um nacionalismo reacionário. Fascistas, partidos burgueses, regimes nacionalistas e outros exploraram o medo que as classes trabalhadoras tinham de um regime socialista mundial que as privasse até de seus pequenos núcleos de tradição étnica. As classes trabalhadoras também compreenderam que o "modernismo" socialista era apenas um nome para uma nova e aperfeiçoada Máquina Planetária do Trabalho.

    O problema não é o nacionalismo, mas o estatismo. Não há nada errado em se falar a própria língua, insistir nas tradições, história, culinária, etc. Mas assim que essas coisas se ligam a um organismo estatal centralizado, hierarquizado, armado, tornam-se motivações perigosas para o chauvinismo, o desprezo pela diversidade, os preconceitos – são elementos da guerra psicológica. Dar ao Estado a tarefa de proteger nossa própria identidade cultural nunca foi um bom negócio: os custos são altos e as mesmas tradições culturais são pervertidas pela sua influência. As culturas étnicas quase sempre foram capazes de conviver em paz enquanto mantiveram os Estados à distância. Comunidades árabes e judias viveram lado a lado sem maiores problemas na Palestina, no Marais (Paris), no Brooklyn (Nova York) e na Rua da Alfândega (Rio de Janeiro), sem jamais tentarem um organização separatista. Claro que não é errado os judeus quererem realizar a idéia de seu próprio Estado; suas comunidades na Alemanha, Polônia, Rússia, etc. foram atacadas por Estados, e eles não tinham escolha senão organizar-se da mesma maneira. O estatismo é como uma doença infecciosa. Após o estabelecimento do Estado de Israel, os palestinos ficaram com o mesmo problema que os judeus tinham na Alemanha. Não é culpa de ninguém – mas o problema permanece. Não adianta perguntar quem começou com isso, nem um Estado judeu ou palestino pode resolver a questão, e não há instrumentos realpolitikos à vista. Algumas regiões autônomas (sumi) incluindo comarcas ou bolos de judeus, árabes, drusos e outros resolveriam o problema, mas só se acontecesse o mesmo no mundo inteiro. Os conflitos do Oriente Próximo podem ocorrer em qualquer lugar a qualquer momento: Beirut é apenas um ensaio preparatório para Nova York, Rio, Paris, Moscou...

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