Para o funcionamento espontâneo de grandes organismos sociais, 500 pessoas parecem ser o limite. Correspondem aos habitantes de bairros antigos em muitos países, a um batalhão de infantaria, à capacidade de um grande salão, ao tamanho médio de uma empresa ou de uma escola, etc. As razões não são puramente genéticas ou tradicionais. O número de 500 pessoas permite um mínimo de variação de idade, sexo, interesses, e uma divisão básica de trabalho. Ao mesmo tempo, a autogestão ainda é possível sem organismos especiais, o anonimato não é necessariamente uma conseqüência (você ainda pode conhecer pessoalmente todos os membros da comunidade, sem ser obrigado a amizades íntimas). Os grupos etários são grandes o bastante para haver interação social e até a endogamia é possível. Num lugar industrialmente avançado existiriam mais ou menos 200 jovens (1 a 30 anos). 200 pessoas de meia-idade (30 a 60) e 100 mais velhos. As faixas etárias (1 a 9, 10 a 19, etc.) compreenderiam 20 a 40 pessoas (exceto os de mais de 80, evidentemente). No início, em áreas do Terceiro Mundo, esses números seriam diferentes (300 jovens, 150 médios, 50 velhos), mas depois acompanhariam os outros.
É típico da maioria dos teóricos alternativos e utopistas conceber suas comunidades básicas de um ponto de vista administrativo ou puramente técnico/ecológico. Esse também é o caso das teorias sindicalistas ou anarquistas e da maioria das utopias. Thomas More, em 1516, combina 30 casas grandes em unidades de aproximadamente 500 pessoas ("Trinta casas, quinze de cada lado do pavilhão onde cozinham e tomam suas refeições." Utopia, Washington Square Press, 1971, p.59). As comunidades de base dos utopistas do século 19 (Fourier, Saint-Simon, Weitling, Cabet, Owen, etc.) são maiores porque se orientam para a autarquia. Os phalanstères de Fourier são pequenos universos que contêm todas as paixões e ocupações humanas. A maior parte das utopias modernas, na verdade, responde a modelos monoculturais totalitários organizados em torno de trabalho e educação. Ironicamente, alguns elementos utópicos foram usados na concepção de prisões, hospitais e regimes autoritários (fascismo, socialismo, etc.).
Em A Blueprint for Survival (The Ecologist, Volume 2, no 1, 1972, citado por David Dickson em Alternative Technology, Fontana, 1974, p.140), as unidades básicas são bairros de aproximadamente 500 pessoas que formam comunidades de 5.000 e regiões de 500.000, que por sua vez são a base para nações. Callembach (Ecotopia, Bantam New Age Books, 1975) propõe minicidades de mais ou menos 10.000 pessoas e comunidades de 20 a 30 membros. Num estudo suíço (Binswanger, Geissberger, Ginsburg, Wege aus der Wohlstandsfalle fischer alternativ, 1979, p. 233), unidades sociais de mais de 100 pessoas são consideradas "não-transparentes", enquanto os índios Hopi norte-americanos dizem que "um homem não pode ser um homem quando vive numa comunidade com mais de 3.000 pessoas". Walden Two, de Skinner (Macmillan, 1948), é populada por 2.000 pessoas, e a maior massa humana de seu sistema tem 200 pessoas. Ver também as comunidades autoconfiantes de Galtung: 102, 103, etc.
A maior parte das utopias é cheia de prescrições gerais em todas as questões básicas (vestuário, carga horária de trabalho, educação, sexualidade, etc.), e postula certos princípios de organização interna. Racionalidade, praticabilidade, harmonia, não-violência, ecologia, eficiência econômica, moralidade, todas são motivações centrais. Mas num bolo definido pela cultura as pessoas vivem juntas e suas motivações não são definidas por um conjunto compulsório de preceitos morais. Cada bolo é diferente. Nem mesmo uma estrutura democrática perfeita pode garantir a expressão e realização dos desejos das pessoas participantes. Essa é também a falha básica de muitas propostas de autogestão (conselhos de quadra, comitês de defesa do bairro, soviets, etc.), especialmente se tais organizações são controladas pelo Estado ou por partidos. Somente a identidade e a diversidade culturais podem garantir um certo grau de independência e "democracia". Isso não é questão de política.
Já que os bolos são relativamente grandes, haverá subdivisões, estruturas e organismos suplementares na maioria deles. Problemas como ter (ou não ter) crianças, educação (ou melhor, nenhuma educação), poligamia, exogamia, relações, etc., tornam-se difíceis de resolver em escala muito ampla. Essas estruturas serão diferentes em cada bolo (kanas, famílias, casas grandes, bandos, células independentes, dormitórios ou não, totens, etc.).
Por muitas razões, os bolos não são simplesmente tribais seu tempo passou irremediavelmente. O slogan "Só as tribos sobreviverão" soa lindo e romântico, mas nossa infeliz história mostra que as tribos não sobreviveram na maior parte do mundo, e as que restam tendem a desaparecer. O que conhecemos hoje por tribo é, na maioria dos casos, uma estrutura patriarcal, estropiada, isolada, medrosa e enfraquecida, e já não serve de modelo prático. É verdade que muitas das características de uma tribo ideal podem ser aplicadas ao bolo (identidade cultural + auto-suficiência + tamanho + hospitalidade), mas as tribos reais nos deixaram a confusão em que estamos agora. As tribos (todos nós!) não foram capazes de sustar a emergência da Máquina Planetária do Trabalho. Era uma vez um tempo em que todos fomos bons selvagens, e no entanto cá está o monstro da civilização. Não há razão para supor que as sociedades tribais que sobreviveram teriam feito melhor elas apenas foram poupadas pelas circunstâncias. Somente agora podemos cuidar de evitar que o erro se repita (todo erro pode acontecer uma vez na história, talvez duas...). A sociedade Era Tribal começa agora.
Organização social sempre significa controle social mesmo no caso dos flexíveis bolos. Quando o dinheiro desaparece como meio de controle social anônimo, esse controle vai reaparecer na forma de supervisão direta e pessoal, interferente, embaraçosa. De fato, qualquer forma de solidariedade ou ajuda também pode ser considerada uma forma de constrangimento social. Cada bolo terá que lidar com essa inevitável dialética de constrangimento e ajuda à sua maneira. Controle social personalizado é o preço que pagamos pela abolição do dinheiro. Praticamente ninguém poderá se isolar e desaparecer nos interstícios de anonimato como na sociedade de massas atual, exceto nos bolos baseados em anonimato consciente. Sociedade sempre quer dizer polícia, política, repressão, intimidação, oportunismo, hipocrisia. Para muitos de nós a sociedade nunca será suportável, e a "boa sociedade" é nome do nosso pesadelo. Por essa razão bolobolo não pode ser um sistema homogêneo para todos haverá espaço bastante para grupos pequenos, pessoas avulsas, vagabundos, eremitas, etc. Nem todos podem viver em sociedade. (Esse aspecto também está ausente da maior parte das utopias ou ideologias políticas exceto na velha filosofia liberal. bolobolo está mais perto do liberalismo que do socialismo...mas o liberalismo sozinho é tão totalitário quanto o socialismo: a ideologia dos mais fortes.) Tenho medo de bolobolo...