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bolos não são primariamente sistemas ecológicos de sobrevivência, pois se você quiser somente sobreviver é provável que não valha a pena. bolos são estruturas apropriadas ao surgimento de todos os tipos de estilo, filosofia, tradições e paixões. bolobolo não é um estilo de vida em si, mas apenas um sistema de limites flexíveis (biológicos, técnicos, energéticos, etc.). Para o conhecimento desses limites o material ecológico e alternativo pode ser valioso, mas não deveria jamais servir para determinar o conteúdo dos diferentes estilos de vida. (O fascismo também teve seus elementos bioideológicos...) No âmago de bolobolo está nima (identidade cultural), e não a sobrevivência. Por essa mesma razão, o nima não pode ser definido por bolobolo, pode somente ser vivido na prática. Nenhuma identidade alternativa em especial (comida natural, roupas de algodão, mitologia da Mãe Terra, etc.) está sendo proposta.A função decisiva da identidade cultural pode ser bem ilustrada pelo destino dos povos colonizados. Sua miséria atual não começou com a exploração material, mas com a relativamente planejada destruição de suas tradições e religiões pelos missionários cristãos. Muitas dessas nações poderiam estar melhor, mesmo nas condições atuais, só que não sabem mais como nem para quê. A derrocada moral é pior do que a exploração econômica. (É claro que as nações industrializadas foram desmoralizadas da mesma maneira só que aconteceu há muito mais tempo e já se tornou parte de seus padrões culturais.) Na Samoa ocidental não há fome e quase nenhuma doença, e a intensidade de trabalho é muito baixa. (Isso se deve principalmente ao clima e à relativamente monótona dieta de inhame, frutas e carne de porco.) A Samoa ocidental é um dos 33 países mais pobres do mundo. Tem uma das taxas de suicídio mais altas do mundo. Na maioria, os que se matam são pessoas jovens. Esses suicídios não se devem à miséria em si (embora não se possa negar que há miséria), mas à quebra moral e à falta de perspectivas. Os missionários cristãos destruíram as velhas religiões, tradições, danças, festivais, etc. As ilhas estão cheias de igrejas e de alcoólatras. O paraíso foi destruído muito antes da chegada de Margaret Mead. A despeito de algumas concepções ordinário-marxistas, cultura é mais importante do que sobrevivência material, e a hierarquia das necessidades básicas não é tão obvia como parece, e sim etnocêntrica. Comida não são somente calorias, estilos de cozinhar não são apenas luxos, casas não são somente abrigos, roupas são muito mais do que uma proteção para o corpo. Não é de se estranhar que pessoas morrendo de fome lutem por sua religião, sua honra, sua língua e outros "folclores" antes de pedir uma garantia de salário mínimo. É verdade que essas motivações foram manipuladas por facções políticas, mas isso também acontece com as lutas econômicas "razoáveis". O fato é que existem.
De onde viria o nima? Não seria correto procurar identidades culturais exclusivamente em velhas tradições étnicas. O conhecimento e a redescoberta de tais tradições são muito úteis e podem ser inspiradores, mas uma tradição também pode nascer hoje. Por que não inventar novos mitos, linguagens, novas formas de vida comunitária, de moradia, de roupas, etc.? A tradição de um pode tornar-se a utopia de outro. A invenção das identidades culturais foi comercializada e neutralizada em forma de modas, cultos, seitas, ondas e estilos. A proliferação das seitas mostra que muitas pessoas sentem necessidade de ter a vida guiada por um arquétipo ideológico bem definido. O desejo que é desvirtuado nos cultos é aquele de uma unidade entre as idéias e a vida um novo totalitarismo ("Ora et labora"). Se bolobolo for considerado um tipo de totalitarismo pluralista, não será má a definição. Pode-se dizer que nos anos 60 teve início um período de invenção cultural em muitos países, especialmente os industrializados: as tradições orientais, egípcias, folclóricas, mágicas, alquímicas e outras foram revividas. Começou a experiência com estilos de vida utópicos e tradicionais. Após a decepção com as riquezas materiais das sociedades industrializadas, muita gente se voltou para a riqueza cultural.
Já que o nima é o coração do bolo, não pode ser controlado por leis nem regras. Por isso mesmo é impossível haver regulamentos para o trabalho dentro dos bolos. A definição do tempo de trabalho sempre foi a viga-mestra das construções utópicas. Thomas More (1516) garantia seis horas por dia, Weitling três horas por dia, Callembach 20 horas por semana, André Gortz (Les chemins du Paradis lagonie du Capital, Galilée, 1983) propõe uma vida de vinte mil horas de trabalho. Segundo a pesquisa de Marshall Sahlin, em Stone Age Economics (1972), duas ou três horas por dia vencem a corrida. A questão é saber quem deveria fazer cumprir esse horário mínimo de trabalho, e por quê. Tais regras implicam um Estado central ou organismo similar para recompensar ou punir. Já que não há Estado em bolobolo, não podem existir regras (mesmo as mais favoráveis) nesse campo. É o contexto cultural de um bolo que define o que é considerado trabalho (=dor) e o que é percebido como lazer (=prazer), ou se essa distinção faz realmente sentido. Cozinhar pode ser um ritual muito importante num bolo, uma paixão, enquanto em outro é visto como tediosa necessidade. Talvez neste a música seja mais importante, enquanto naquele seria tido como barulho. Ninguém pode saber se um bolo vai usar setenta ou quinze horas semanais de trabalho. Não há estilo de vida obrigatório, nenhuma contabilidade geral de trabalho e lazer; unicamente um fluxo mais ou menos livre de paixões, perversões, aberrações, etc.